O público de Alfred não podia passar por "aperto", para isso os momentos de tensão e direção eram sempre cadenciados, montados respeitando as necessidades fisiológicas do espectador.
Todos ficam tão vidrados em seus filmes que o aperto na bexiga, pernas cruzadas, corpo retraído nunca são sentidos. Preste atenção nisso. Alfred Hitchcock respeita a biologia do ser humano, faz com que se preocupem apenas com a ação. Como disse o diretor:
um filme deve durar até quando seu público tenha necessidade de ir ao banheiro.
E o que motiva uns e outros a fazerem o número um? Cachoeiras? Suspense? Cenas entediantes? Isso apenas o mestre do suspense poderia responder. Fato é que mortes são sublimes, mães são bizarras e filhos funcionam como álibi forjado.
O mítico ingês da trilha sonora irreverente, se tornou referência por cortar com uma simples, porém sincronizada, aproximação de câmera, sempre vigiando a vida de bailarinas, donas de casa e assassinos.
O revelador da Princesa de Mônaco, gordo e beberrão deixou sua marca na evolução e desenvolvimento da técnica cinematográfica. Contudo, o que mais me encanta são suas rápidas aparições em seus filmes.
Christopher Nolan, are you watching closely? Já vi seus protagonistas viúvos, com amnésia, cheios de manias. Seus personagens sempre foram marcantes e com fortes vínculos no passado. Duvido muito que Leonard Shelby abdicaria do trono de protagonista pelo bem da humanidade. Confesso que você me confundiu várias vezes. Fez mágica, colocou Einstein à prova e mudou o rumo do tempo, mostrou várias vezes a verdade, que seus espectadores teimam em esquecer. Admiro sua dinâmica. Tive noites insones tentando desvendar seus truques, seus cortes, sua direção.
Contudo, Nolan, seus devaneios sempre se embasaram em elementos simples. Foi você mesmo quem disse que implantar uma idéia em um subconsciente é um processo muito complexo, portanto, a idéia deve ser simples. Por exemplo: é fácil perceber a duplicidade no alterego Wayne/Batman, ou na dupla inseto/algoz de Doodlebug. Você não conseguiu se aproveitar tão bem assim da subjetividade em A Origem, tanto que nem o detetive Will Dormer saberia distinguir o que é fato e que é mera invenção do seu subconsciente.
Don Cobb (Leonardo DiCaprio) é um ladrão, especialista em invadir sonhos e extrair segredos dos indivíduos. Procurado em vários países, ele vê uma chance de voltar para casa, basta realizar uma última missão: implantar uma idéia na mente do empresário Robert Fisher (Cillian Murphy). Porém, o subconsciente de Cobb é inconstante e a memória de sua esposa, Mal (Marion Cotillard) podem comprometer as mentes de todos os envolvidos.
Christopher Nolan é um dos grandes diretores modernos, e seus filmes sempre apresentam inovações tecnológicas e de filmagem. Todavia, O Grande Truque e A Origem pareceram produções intermediárias frente a seus demais trabalhos, projetos-teste para a franquia do Batman. O texto de Nolan, contudo, abrange uma temática muito complexa, com tanta profundidade que parece ter ele mesmo se perdido no limbo. O roteiro apresenta uma história espetacular, que sempre busquei nos filmes, mas faltou complexidade no psicológico de cada personagem.
Os labirintos desenvolvidos pelos arquitetos, como é o caso de Ariadne (Ellen Page) são tão complexos e gigantescos que perdem, até mesmo, aquela percepção mais simples e sombria dos sonhos. A direção de arte se preocupou tanto nos elementos visuais, que ignorou a composição psicológica e a participação de elementos do subconsciente dos demais personagens. Mal é o único ser que interfere na história, será que nenhum outro personagem tem medos, preocupações e monstros em seus sonhos? Nolan perde tempo explicando e trafegando entre os diferentes níveis de sonhos e não desenvolve motivações concretas, tornando as relações emotivas fracas e forçadas pela dinâmica do filme.
O dinamismo que sempre elogiei no trabalho do diretor não poderia ser utilizado dessa maneira em A Origem, a narrativa precisava de mais tempo para ser desenvolvida. Talvez se a história começasse com o relacionamento entre Cobb e Mal, seria mais interessante, permitiria o suspense e reviravoltas na trama, além de uma atuação mais emocional. As locações deveriam ter sido melhor apresentadas, o espectador não tem que se sentir preso em um labirinto. As relações são dicotômicas, todas as necessidades e ferramentas funcionam quase perfeitamente em contraponto com a instabilidade dos sonhos. A relação e separação do subconsciente é muito clara, atém mesmo entre os viajantes menos experientes.
A trilha de Hans Zimmer é brilhante, colabora na relação tempo-espaço, o melhor elemento do filme. Os efeitos são multo bem aplicados nessa relação. Toda a parte técnica do filme é impressionante.
Nolan parece ter tentado mostrar os sonhos como eles são, mas primou pela perfeição, e se perdeu no meio de tanta complexidade.
Cisne Negro é mais um trabalho de primor técnico do diretor americano Darren Aronofsky (π e Réquiem para um sonho). O nível arrasador de fragmentação do psicológico da personagem Nina (Natalie Portman), motivada pela insensata busca por movimentos perfeitos na remontagem de "O Lago dos Cisnes", é aumentada pelo excesso de proteção de sua mãe (Barbara Hershey), reprovação do diretor do espetáculo (Vincent Cassel) e inveja do estilo arredio de dançar de Lily (Mila Kunis).
A trama é visceral, agressiva. O recato e desempenho de dança de Nina são bombardeados por critícas e incitações ao sexo, ponto de partida para todo o suspense do filme. O roteiro transforma o espectador em ser passivo, que não espera nada da história. O resultado é a surpresa. Cada cena é, na verdade, o Lago dos Cisnes recriado por Aronofsky, um trabalho agressivo, que dependeu muito da entrega de uma artista a um personagem. O diretor criou uma metalinguagem. Portman e Nina representam a introjeção da obra no artista.
Todos os elementos de cena corroboram para a criação de um ambiente familiar, porém agressivo. Direção de arte e figurino lidaram bem com esse clima dúbio de Cisne Negro, colocando em cena sempre poucas cores e, de preferência o preto e o branco. Os efeitos especiais são inseridos pontualmente, no entanto, são primordiais. Percebe-se aqui que, às vezes, jogos de espelho são mais eficazes que inserções digitais.
A direção, fotografia e edição são destaques. As cenas filmadas com a câmera na mão ou em trilhos mostram técnicas inerentes a uma nova geração de diretores. Sem esses elementos, seria impossível criar a degeneração e o estado de pânico de Nina. Todos os planos e iluminação se entrelaçam, intercalando ações que representam características destoantes das personagens sem tornar o filme cansativo ou confuso.
Contudo, o maior mérito da película é, sem dúvida, a atuação de Natalie Portman. Quem assistir ao Cisne Negro certamente imaginará que a atriz deve ter passado pelo mesmo sofrimento e dor na construção de Nina. Aronofsky consegue extrair o melhor de Portman, seu ímpeto, sua coragem e seu amor são críveis e é impossível não perceber a identificação atriz/personagem.
O baixo orçamento do filme (US$ 13 milhões) não é, sob nenhuma circunstância, um limitador para sua qualidade. Todos os louros, prêmios e indicações são muito merecidos.
O que sentimos? O que ouvimos? Existe vida após a morte? Estamos sempre em contato com os finados ou somos meras vítimas de aproveitadores? Casas mal assombradas, mortos vivos e crianças videntes são elementos sobrenaturais que fazem parte dos roteiros de suspenses desde os anos 1920, quando Robert Wiene dirigiu O Gabinete do Dr. Caligari. Nas últimas décadas, antigas religiões perdidas, crendices, mitos e tradições sombrias se tornaram temas recorrentes do gênero. À primeira vista, o filme Os Outros segue essa premissa e deixa indícios de ser um suspense comum sobre um tema igualmente comum.
Não obstante, a película de Alejandro Amenábar tenta apresentar o outro lado da parapsicologia. Em uma história bem esboçada, cada personagem tem constituição psicológica e executa papel decisivo para o desenvolvimento da trama. O parapsicólogo Benjamim Bossa em seu livro “Parapsicologia: o poder da mente e os mistérios da vida” explica que ruídos, vozes e possessões são manifestações da mente e, raramente, essas revelações podem ser percebidas de forma semelhante por várias pessoas. Essa relação entre vivos e mortos parte mais da incompreensão do próprio estado do que da tentativa de eliminar almas que estão em planos diferentes.
Trata-se de um suspense psicológico, não baseado em sustos nem cortes rápidos. Os Outros busca um estilo limpo de constituição de um filme, delineando todo o suspense da obra a partir do roteiro. Grace Stewart (Nicole Kidman) mora em uma antiga mansão com os dois filhos Anne (Alakina Mann) e Nicholas Stewart (James Bentley). Ambos possuem uma doença que os torna sensíveis à luz, o que obriga Grace a manter todas as cortinas fechadas. Revelações estranhas começam a acontecer a partir do momento em que a Sra. Bertha Mills (Fionnula Flanagan), o Sr. Edmund Tuttle (Eric Sykes) e Lydia (Elaine Cassidy) oferecem seus serviços na casa, quando tudo indica que há outras pessoas na casa. O breu total, a doença dos filhos e a ausência do marido que não retornou da guerra não deixam alternativa a Grace, a não ser rezar.
A originalidade está na forma do diretor em conduzir o trabalho. Uma direção mais leve, sem tantos cortes secos, que destaca o roteiro e as atuações. O desfecho é interessante, todavia, não é o primeiro já visto no gênero. Almenábar se aproxima dos filmes de Alfred Hitchcock, onde o suspense é estruturado a partir de jogo de perguntas e respostas para a construção do sentido no final da trama, contudo, a edição não permite muitas idas e vindas pela história. Há uma crescente emocional e as reviravoltas da história desestimulam a curiosidade e tornam o espectador muito passivo, mais interessante seria se ele pudesse conjeturar as causas.
Os efeitos especiais são escassos e o suspense está no desenrolar da trama, sem a edição rápida e tecnologia, usados para causar medo ao público. Não há muita liberação de adrenalina nem expectativa intensa e o espectador tem tempo para ruminar a história. Se os criadores confundissem mais e desconstruíssem a narrativa, o aspecto emotivo poderia ser mais bem estruturado e surpreender em sua totalidade.
A fotografia é espetacular e brinca com os conceitos do claro e escuro, viabilizados pelos ambientes internos e externos da casa, cuja iluminação sombria favorece aos filmes de suspense. Falta ousadia à edição, cuja linearidade não se adéqua aos saltos do roteiro. Atuações firmes, completadas pela simplicidade da trilha sonora e da maquiagem. A cenografia merece destaque. Quartos escuros, lençóis brancos e portas que rangem são utilizados de forma criativa, não para dar sustos tão somente, eles fazem parte da história do filme.
Em termos gerais é um bom filme, acertado do início ao fim, que ultrapassa os clichês dos suspenses contemporâneos. O conteúdo diferenciado soa como uma evolução no gênero que não chegou às vias de fato. Um bom trabalho que ficou pelo meio do caminho, entre o suspense comum e um filme realmente estruturado. Parece ter saído das sombras, mas ainda não chegou à luz.